segunda-feira, 29 de agosto de 2011

TODAS AS COISAS IMENSAS ou O DINOSSAURO


Todos os direitos da imagem reservados a paolaTONELLI


I
Nasci da caridade dos meus pais que não se amavam, mas queriam ter filhos, porque seus pais tiveram filhos e foi mais ou menos assim que todo mundo na família nasceu, segundo as regras estabelecidas pelo social, pelos bons costumes e pelos olhares condescendentes das boas senhoras que viam meus pais e sorriam, pensando: sim, que linda família feliz. Umas velhas infelizes que também nunca tiveram um bom casamento, mas que tiveram filhos, que é o que importa. De qualquer forma, os dois formavam um belo par, meus pais, gente de respeito que apesar de desprezar o amor, era socialmente aceitável e aos olhos do mundo precisavam de um filho. Então, eu nasci. Já era feio desde o início, o que fez meu pai chorar por dias e dias sem fim. Chorava e resmungava: como é feio meu filho. Durante anos quis mais que tudo me lançar ao mar, não porque não me amasse, pois acho que amou no fim das contas, mas porque eu era feio e a beleza do mar o mergulhava numa melancolia doente. Meu pai era assim. Apaixonado pela superfície das águas sem nunca aprender a nadar, só dando importância ao que via, a imagem, porque as profundezas lhe enchiam de receios. Vai ver foi por isso que nunca olhou pra dentro de mim. Na verdade, com medo de se afogar nunca olhou pra dentro de ninguém. Viveu e morreu de aparências. Nem de velhice, nem de cansaço nem de doença, morreu de aparência. Velho, cansado e doente, mas mantendo as aparências até o final. Nasci da caridade dos meus pais, sobretudo, da minha mãe, que apesar do nojo que dedicava ao marido, permitiu ser tocada aquela única vez. A apatia a abateu aos vinte anos e desde então, desapegada da vida e dos carinhos, passou a alimentar a ideia cada vez mais fixa de morte. No entanto, quando teve de morrer já era velha, já era uma dessas que olhavam pros casais mais jovens e pensavam: que linda família feliz, se enganando e desejando um pouco daqueles sorrisos pra si. Às vezes, parecia que há muito tempo o coração já tinha perdido o sentido e a vontade. E mesmo assim quis ter um filho. Por caridade, como digo.

II
Das lembranças que ainda trago, me ocorre agora uma em particular que acredito ser o mais distante que minha memória alcança. Lá pelos cinco anos talvez, senão cinco, seis e senão seis, sete, mas não mais que isso. O resto que sei vem do que os meus pais me contavam e jamais soube nem saberei se são verdades, pois eles nunca foram conhecidos por serem especialmente sinceros, embora eu admita que dos mentirosos da família, o melhor sempre fui eu. Eu tinha pernas curtas. Pernas curtas e gordas que ficavam pendendo no ar enquanto eu, sentando na poltrona do meu pai, observava o jardim pela janela. Sempre tivemos um jardim bonito lá em casa, o maior responsável, eu diria, pela falsa sensação de felicidade que reinava em minha consciência infantil. Alimento até hoje essa ideia, sobretudo nas noites de porre, de que eu nunca teria percebido a dor se tivesse ficado ali pra sempre, encarando o jardim pela janela, encarando a grama e a imensidão das cores e da vida fértil, vida inconsciente de sua condição de vida, ignorante ao tempo, que passa e que leva e que desfaz tudo. Enfim, a ideia era permanecer distraído com a vastidão da paisagem, não dando atenção, como que por puro esquecimento, aos humanos e suas queixas eternas sobre a efemeridade das coisas e de tudo mais.
De qualquer forma, sempre acordava do meu jardim tranquilo pra dar de cara com a minha mãe ao meu lado, a apatia e a palidez dos olhos cansados que nessa época já não me viam mais, olhavam sempre para frente, pras paredes descascadas, mas coitada da velha, nem as paredes ela via, via talvez a si mesma, seu próprio sonho invisível e inalcançável de ser amada, de ser feliz. Como é que pode alguém que não é cega, deixar de ver de repente por pura opção?
Nunca entendi isso.
A velha encarando a parede e eu encarando a velha. Acho que é por pudor que sempre digo que foi carência, que foi desejo de ser visto, de ser finalmente encontrado por aqueles olhos vazios que fez de mim o mentiroso que sou hoje. Mas não, se tiver de ser absolutamente sincero – coisa que acredito nunca ter sido em minha vida inteira – tenho que confessar que menti naquele dia por um puro e irrestrito prazer de enganar. Foi a primeira vez que senti aquela vontade incontida, o desejo irrefreável de contar uma mentira banal, de dizer:
Olha, isso é verdade, acredite em mim – mesmo sabendo que não era. E eu sabia, mesmo criança eu sabia, mentir é feio, mentir é errado, o dedo do meu tio em minha cara admoestando-me ao comportamento adequado e padrão. Mas eu menti.
A partir de então, alimentei com minha língua venenosa a vontade cada vez mais latente de enganar alguém, vontade que mais tarde, eu chamaria de profissão.
Tem um dinossauro no nosso jardim, mamãe, tá esmagando suas petúnias – eu nunca soube o que eram petúnias, mas dinossauros eu sabia, e sabia também que eles não existiam, o que é muito relevante pra essa história.
Mamãe olhou pra mim com aquele seu jeito de olhar sem ver e disse:
Minhas petúnias, querido? Nunca tive petúnias...
Essas pessoas de almas cegas, incapazes de perceber imensos dinossauros diante de seus olhos de tão limitadas pela pequenez das petúnias inexistentes. Minha mãe era assim.
Naquela mesma noite, um pouco antes da hora de dormir, avisei à minha mãe pra tomar cuidado e deixar as luzes do meu quarto acesas, pois tinha uns elefantes subindo e descendo as escadas e eu estava preocupado, não com medo, entenda, preocupado, pois não podia ter certeza de suas intenções.
Talvez estejam apenas querendo esmagar minhas petúnias – ela disse.
Ao que eu, com uma naturalidade invejável aos grupos de teatro fracassados, respondi que não, pois todo mundo sabia que os elefantes eram infinitamente mais educados que os dinossauros. Minha mãe não disse mais nada, mas deixou uma luz acesa, pois não era afeita a grandes debates e sabia que eu podia ser bem insistente. Eu não dormia bem a noite, então lia debaixo dessa luminosidade amarela e pouca. Aprendi a ler muito cedo, isso bem antes de entrar pra escola, porque acho que essa é a sina das pessoas feias e pouco afoitas ao convívio social, ser pelo menos inteligente já que não sobrou mais nada. Eu lia muito, dos livros extensos e confusos aos cadernos e diários que roubava das menininhas bobas e esnobes da minha turma. Nem sempre entendi tudo, mas devorei linha por linha de cada título, talvez por causa do medo de acordar pra minha insônia, descobrir a verdade sobre minha falta de sono.
Depois dos elefantes, vieram os patos. A ideia era esconder coisas miúdas pela casa, sobretudo as joias caras da minha mãe, e culpar um astuto e improvável grupo de patos marginais pelos delitos. Mesmo previamente condenados à prisão perpétua, os patos nunca foram encontrados, as miudezas, entretanto, eram sempre vistas debaixo de um balde, de uma cama ou de outro esconderijo qualquer, tão pouco criativo quanto. Era a primeira vez que eu me deparava com um furo tão óbvio em minhas histórias. Nessa época, me faltava o devido apego aos detalhes. Faltava-me verossimilhança, mas na verdade eu ainda não conhecia nem essa palavra.
O fato é que um dia, por fim, descobri a existência dos ratos; um bocado de criaturinhas sebosas que vagavam pelo submundo, nesse caso, o porão lá de casa. Até então, ainda não havia me ocorrido a possibilidade de misturar mentira com verdade, mas foi isso que eu fiz. Ruí tudo aquela tarde, roupas de cama, vestidos, calças e paletós. Mexi na comida, espalhei pão mastigado pela casa e disse: detesto ratos e seus dentinhos sujos acabando com tudo. Minha mãe entrou em crise, disse que a casa estava condenada, moradia de bichos imundos, devoradores de migalhas e que não podia suportar tamanha desgraça. A apática, finalmente, histérica, de olhos arregalados gritando com meu pai. Dois dias depois, munido apenas de sua necessidade jamais abrandada de manter as aparências de corajoso homem do lar, meu pai desceu ao porão. Minha primeira obra-prima. Foi a última vez que vi minha mãe desperta, depois disso se encerrou em sua cegueira e nunca mais voltou de lá. Como ela adorava essas coisas pequenas, ratos e petúnias. Se pudesse ter visto a grandeza de outras coisas belas, mas enfim, não viu, não adianta lamentar.
            Descobri, portanto, que as mentiras pequenas eram incrivelmente mais eficazes que as exageradas, e também que muitas mentiras pequenas somadas originavam imensas mentiras infinitamente mais eficazes que uma grande sozinha. Por essa época, eu já devia ter quase dez anos e as pessoas me deixaram acreditar que eu podia ser um bom escritor.
 
III

Me apaixonei duas vezes nessa vida, mas acho que só a segunda eu realmente amei. Pelo menos é o que me parece agora, nesses dias em que olho pela janela e só encontro chuva e desapego. Às vezes penso que é só disso que sou capaz, olhar pela janela esperando alguma coisa que arredonde a vida, que feche esse meu ciclo. Mas é porque eu estou velho e velho tem dessas coisas, melancolia do inalcançável e vontade de ser jovem de novo. Juro que não entendo essa gente que diz que juventude é estado de espírito. Não me dão nada. De que me serve estado de espírito agora? Eu queria é que a dor nos ossos parasse de uma vez por todas. Mas não me dão nada. Acho que no fundo ninguém perdoa essas minhas lacunas, minha história que de um instante para o outro me escapa, foge de uma contagem natural. Não me foco em nada nem em tempo algum porque morro de medo da linearidade, da certeza do tempo que flui pra um lado só. Sou tão velho quanto já fui jovem, sou tão caduco quanto já fui menino, quanto já tive idade de me apegar às fragilidades da paixão, pois me apaixonei duas vezes nessa vida e só amei a segunda porque sei que ela me amou também. É meu egoísmo que me faz assim, um homem que só ama de volta e nada mais. Olho pra trás e me vejo. Eu tinha só quinze anos e um bocado de certezas de sucesso. Olhava o tempo todo pra frente porque nessa época a linearidade já me assombrava, por enquanto em forma de juventude demais. Já faziam quase três dias que meu pai tinha se trancado no quarto em companhia da vodca. Não abria a porta pra ninguém e bebia pra esquecer não sei exatamente o que. Era sempre assim, o velho sofria em silêncio por anos, guardando por trás de um sorriso hipócrita a angústia de sua vida que não deu certo, até que finalmente cedia a bebedeira e se acabava nas garrafas sem ter certeza do porquê sofria ou porquê fingia não sofrer. Foi por isso que na noite desse mesmo dia escrevi minha primeira história relativamente longa a respeito de um homem bêbado preso num quarto sem portas e janelas, claustrofóbico e incapaz de escapar da mediocridade de uma existência inútil. Nada mais nada menos que uma mentira incrivelmente verdadeira posta no papel.     A sensação de colocar aquele último ponto foi terrível, foi como dizer: acabou-se a história, mesmo sabendo que a história nunca se completa. No fim das contas, a história que se conta nunca é aquela que se inventa. Nunca escrevi bem, nunca me li com bons olhos, e mesmo hoje, ainda me assusta chegar a um final. Chegar a um final só dá vontade de começar de novo. Eu nunca me aceitei, foi por isso que também nunca gostei dos meus textos. Naquela noite, pensei muito nessas coisas e na vergonha que eu sentia de mostrar aquilo pra alguém. E se alguém visse o que eu escrevia? E se rissem de mim, se eu passasse por ridículo? Dali há duas semanas eu me apaixonaria pela primeira vez e descobriria essas respostas. A ela eu daria tudo.

IV

Meu pai era religioso. Nunca acreditou em Deus, mas como morria de medo de ir pro inferno dava excessivo valor aos padres e a imensidão das suas ofertas – suas doações, por assim dizer. Sempre achei isso tudo muito medieval, mas era o jeito dele de se sentir seguro nesse mundo. Veja bem, nesse mundo. Porque na verdade ele nunca compreendeu bem a existência de céu e inferno, era só precaução, dinheiro bem investido e aparências. Sempre as aparências.
            Pessoalmente sempre achei a fé muito mais sóbria que o ateísmo. Desde essa época já cria em Deus, o que meu pai não via com bons olhos. Acho que era coisa de religioso mesmo, eles adoram ter posse do que é divino, mas nunca se entregam a Deus.
            Ela chegou tarde. Entrou de mãos dadas com a mãe, a menina cega. De início, fiquei imaginando porque ela chorava. Ela era tão bonita. Na minha cabeça, não fazia sentido que as coisas bonitas sofressem. É que no começo eu não sabia que ela era cega. Eu senti que a amava quando ela sentou ao meu lado no banco da igreja, chorou o tempo inteiro, soluçava e eu me compadecia dela. Coitado de mim, não fazia ideia de todos os tons e nuances que separavam amor, paixão e todos os demais sentimentos que unem mulher e homem. Eu chamei de amor, mas eu mal sabia.
            Eu descobri que ela era cega porque ela não riu de mim, sabe, não riu do meu rosto, da minha aparência. Ela estava lá olhando pra mim sem ver e eu não senti vergonha. A esperei na porta, no fim. Ouvi quando o padre explicou pra velha que não era dom dele curá-la e sim dom de Deus. Ele as confortou por um instante e depois disse que eram os pecados delas, mãe e filha, que impediam a menina de enxergar. Elas eram imundas, ele disse. Elas choraram.
            Ah, as coisas que nos fazem acreditar.
            A mãe entrou com o padre. Procurava a carteira na bolsa, mas demorava a encontrar, acho que por relutância ou pela própria falta do que pagar. A cega sem saber sentou-se perto de mim nas escadas.
            Sabe, às vezes eu penso que tem muita coisa nesse mundo que é melhor não ver.
            Quem tá aí? – sussurrou.
            Eu só estava dizendo que talvez fosse melhor deixar pra lá, sabe, essa coisa toda de tristeza.
            Ela não disse nada. Meus dedos se mexeram em direção aos dela. Sempre tive medo da rejeição. Mas era medo do que as pessoas podiam ver em mim, não do que elas podiam ouvir, porque embora eu sempre tenha me mostrado inseguro a respeito das minhas palavras, lá no fundo, eu sempre achei que as dominasse, sempre achei que seria pelas palavras que as pessoas iam me amar. Lá no fundo, eu acreditava. Acreditava apesar da vergonha e da vergonha brotava meu orgulho. Então tive medo, porque embora eu fosse feio, ela não tinha como saber; tinha como ouvir, entretanto, o que eu falava e eu falava bem, vi isso em mim daquela vez.
            Tive medo. Mas ela pegou na minha mão e me salvou.

V

Eu tinha um coração imenso e vazio e ela veio e o preencheu, vamos colocar as coisas dessa forma sem exagerar no decoro ou na vergonha pelos deslumbramentos infantis. A solidão sempre foi uma bala de canhão na minha vida, mas ela segurava minhas mãos uma vez ou outra e eu me sentia bem. Era o tipo de coisa que ela fazia, segurar minhas mãos e o peso das minhas costas. Foi basicamente por isso que eu pensei que podia confiá-la minhas palavras, e as palavras eram tudo que eu tinha. Estávamos sentados sobre a grama úmida, um de frente pro outro, nossos joelhos se encontrando. Meu caderno estava aberto e eu a contava aquela história sobre o homem bêbado, o homem preso no quarto sem portas nem janelas incapaz de fugir de si mesmo e de sua própria dor. Eu li cada palavra, às vezes rubro,  às vezes altivo, orgulhoso, mas li cada palavra e no final olhei pra ela. Acho que ela me viu, com aquele jeito dela de me ver. Havia um silêncio terrível de respiração e suor escorrendo. Meu pomo de adão se mexeu duas vezes antes que ela se jogasse pra trás gargalhando, quebrando o silêncio e o encanto. No início, eu não entendi.
            Não faz sentido – ela disse. – Se não havia portas nem janelas, como o dinossauro engoliu o homem?
            Você não entendeu, o dinossauro era a solidão, eu quis dizer. Eu quis chorar também, mas eu só corri. Deixei o caderno cair e corri muito enquanto sentia minhas faces se avermelharem e queimarem meu orgulho. Folhas jogadas, coração partido. Meu medo do ridículo finalmente concreto. Era ridículo o menino correndo sem pensar na menina cega incapaz de voltar sozinha pra casa. Ela estava rindo e ele a abandonou ali. Ah, a vergonha sempre justificando as atrocidades humanas. Sem vergonha. Eu era um menino e eu quis correr, quis morrer, porque aos meninos sempre parece imensa qualquer derrota no amor. É que não viram nada da vida e pensam que vale a pena sofrer por cada pedaço de coração partido. As pessoas me deixaram acreditar que eu podia ser um bom escritor, por que fizeram isso?
           
Meu pai não caçava, mas na parede de seu escritório tinha uma arma pendurada, porque é muito masculino ter uma arma e um cachorro pra caçar. Lembro de ter pensado nisso naquele dia enquanto corria, enquanto pensava em morrer. Tchekhov uma vez disse que se há uma arma pendurada na parede no primeiro ato, você vai precisar descarregá-la até o fim da peça. Me faz pensar em como vou fazer pra usá-la antes de terminar essa história.

VI

Como você bem sabe, meu outro amor foi você, nunca lhe contei essas coisas porque tinha muito medo, não sei do que exatamente, mas tinha medo; lhe conheci já adulto, mas ainda agia como um idiota infantil em quase tudo. Ainda era muito só. Acordava sozinho, comia sozinho, dormia sozinho. Bebia exatamente dois litros de água por dia e ia a museus. Era aquele meu desejo de olhar pros dinossauros. Você chegou numa dessas tardes frias e úmidas em que até os bem amados têm vontade de chorar. Eu estava no museu com os braços cruzados atrás das costas quando você chegou ao meu lado. Eu te senti, mas não disse nada porque eu tive vergonha.
            Você vem sempre aqui? – teria parecido errado se eu dissesse, mas foi você quem disse e eu achei lindo.
            É. É quase como se fosse a minha casa, meu jardim...
            Então tem um dinossauro no seu jardim...
            Estava lá o tempo todo, mas só você que viu. É que alguns nascem pra domar dinossauros e outros pra regar petúnias. Simples assim.
VII

Me apaixonei duas vezes nessa vida, mas só amei você. Você me amou de volta. Já partiu faz tempo e ainda não terminei sua carta. Sempre te levo flores aos sábados, sábado que vem talvez eu deixe a carta lá sobre a pedra muda. Eu já sou muito velho e morrer nessa idade é um lucro imenso. Vi e ouvi muita coisa e em troca disso espalhei mentiras. Eu era muito inconsequente com as palavras, mas você sempre acreditou em mim. Vi a morte descendo de um trem ontem na estação, tem muita gente nessa cidade, não acho que eu tenha porque me preocupar. Mas tenho sentido ela cada vez mais perto. Imagino que vou morrer num sábado, pela manhã de preferência, depois da sua visita semanal, vou estar sentado na sala e vou vê-la chegando pela janela, vai caminhar pelo chão de barro até alcançar o jardim e esmagar as petúnias. Ela é simpática, a recebo bem. Não sei, sinto que será amistoso porque nessa idade já é um lucro imenso. A arma continua na parede, não a uso, mas no fim das contas, eu morro no final.      

Ramon Vitor Fernandes
25 de Agosto de 2011

sábado, 18 de setembro de 2010

Um conto de desapego


Querida, já faz tanto tempo. Tenho pensado cada vez menos na gente, cada vez menos no que fomos, se é que alguma coisa fomos algum dia, e confesso que de certa forma, me faz bem. No íntimo, me orgulho dessa idéia de seguir em frente, é o tempo agindo e é muito importante que ele aja em tudo. Até em mim. Até em você. E é por você que escrevo agora. Tão somente por você – que nunca dirá aquele obrigado que sempre esperei. Escrevo quase que por lembrança, já que tenho pensado cada vez menos na gente desde que o tempo começou a agir. A luz tá fraca aqui no quarto, e aos poucos perco o que sobra de meus dedos e meus olhos, e da tinta da caneta que mancha esse papel. Sabe, amor, antes de você costumava ser mais fácil lidar com a vida, com os sentimentos e as escolhas. Eu sempre fui a razão sobre todas as emoções alheias. Eu não era impulso nem instinto. Só razão. Eu era o provisório, o que uma hora ou outra acabava partindo, o que uma hora ou outra acabava voltando, o ar arrependido e as promessas não cumpridas na boca do estômago. Eu era o apanhador no campo de centeio, eternamente suspenso, mala e vida feitas; pronto para a fuga. Eu era você, agora que você partiu. Dia desses, vi você na rua, seus cabelos caindo sobre os olhos e seus amigos rindo. Você não me viu. Começo então a suspeitar que no fim das contas nunca me viu de verdade, nunca olhou lá no fundo da água rasa em que me tornei por você. Eu era tão razão e desde então, tão sentimento, sentimentalista até. Faz bem sentir, mesmo que às vezes doa, faz bem, a gente aprende, a gente muda. Uma vez eu disse que mudei muito para continuar sendo o mesmo, mas eu mal sabia. Me vejo agora tão mais estranho. Como se amadurecesse enquanto os olhos cansam e a dor na cabeça aumenta, de intensidade, de tamanho. Enquanto cresce. Perguntei pra muita gente, mas ninguém, na verdade, soube explicar, me dizer o que você fez. Eles só vêem, como eu, o resultado, o que mudei. Ninguém deu nome ao que você me fez. Talvez o que você me fez não tenha nome. Eu não me importo agora, um nome não mudaria o que eu sinto. Mesmo meu nome junto ao seu nome, postos lado a lado num papel, deixou de significar alguma coisa depois de sua fuga. Não sei bem o que penso nesse ponto das coisas. Nunca sei o que penso em ponto algum, na verdade. Sou tão somente o apanhador no campo de centeios de Salinger, voltando atrás, voltando ao sonho, suspenso. Cada dia me amontôo mais de papéis – amassados ou não – de textos, de livros. E leio, e ouço música, levando aquela vida pra dentro, da qual nos fala Caio Abreu. Fico tão amargo. Fico tão doce. Fico talvez essa mistura imprópria, fora do ponto, mas nunca fui um bom cozinheiro mesmo, você bem sabe. A tinta da caneta pode acabar a qualquer minuto e de certa forma, ainda não disse o que queria dizer. Tempo eu tenho, não me entenda mal, mas se a caneta acaba, não sei. Já está escuro lá fora e fico um pouco receoso do frio e do silêncio. Seu frio e seu silêncio. A frieza das palavras que você não me disse. Te conheci tão pouco, tudo que quis foi um pouco mais de você sob pena de me entregar por inteiro; você nunca teria me perdoado por te valorizar tanto, justo você que nunca se deu valor. Sabe, amor, com o tempo a televisão vai preenchendo aquele espaço que era seu, tenho pensado cada vez menos na gente desde que o tempo começou a agir porque fico me distraindo, com a TV, com os livros e as músicas, mas nunca com as pessoas, as pessoas eu simplesmente amo, porque não quero me tornar nesse momento aquela coisa sem nome que me partiu por dentro. A luz do meu quarto está falhando e minha caneta e minha vista, sento na cama, tou com medo de dormir e me esquecer do que escrevo, tou com medo de sonhar de novo, tou com medo de você. Sabe – e espero sinceramente que saiba amor, porque eu já não lembro de quando você partiu, sempre penso nisso como uma coisa gradativa que se perdeu no tempo. Novamente, só vejo o resultado, não os meios, só os extremos. Tenho pensado cada vez menos na gente e é o que me consola. O tempo agindo em prol da criança de Salinger dessa vez. Sou o apanhador no campo de centeio, partindo então, dando às costas pras lembranças, me libertando. E embora o tempo aja, e embora eu mesmo aja e aja a televisão, a pergunta talvez persista ainda, pulando em minha mente: ainda penso em você?
Espero que não.

segunda-feira, 19 de abril de 2010

Das novas tecnologias que dão medo.

Créditos da imagem: Galeria de Carola Amtmann.
É novo. É moderno. O mundo é novo e moderno, e firmado em cima de sua tecnologia inabalável, onipotente e totalmente justificada pelo conforto e pela facilidade absolutamente necessária à correria do dia-dia, à pressa, justamente gerada pela modernidade, pelo avanço que está sempre correndo desembestado ao encontro de mais avanço. O mundo contemporâneo avança, corre, cresce, vai seguindo enlouquecido em direção a um futuro que não chega, que está sempre mais além. E assim, segue. E tudo que não se adéqua ao recente, a renovação constante e interminável, é deixado para trás, fica obsoleto. Até o fim do dia, alguém, em algum lugar, terá uma grande idéia, trabalhará num grande projeto, uma grande invenção que desencadeará novamente uma inovação sem precedentes. A tecnologia gerando mais tecnologia que nunca tem fim.

Enquanto isso, eu e você ficamos ansiosamente aguardando o próximo passo, tentando nos manter constantemente atualizados de uma forma que só a internet é capaz. Ninguém pediu nossa opinião a respeito, mas as mudanças chegaram, e continuam chegando e de nossa parte a única contribuição é se adaptar, seguir em frente. É um fato, e eu não o estou questionando, apenas estabelecendo os motivos dessa postagem. A tecnologia veio e veio pra ficar, nossa adaptação, mais do que necessária, é óbvio e a única solução. Só que apesar de tudo às vezes me assusto com a velocidade em que o novo se torna ultrapassado. Um piscar de olhos.

Um celular comprado ontem, hoje se desgasta. Já tem algo mais moderno no mercado, mais caro e com uma infinidade de vantagens desvantajosas que você na verdade nem precisa. Estamos com freqüência comprando produtos que já vêm com o prazo de validade vencido, porque embora tire foto, filme, baixe música e as reproduza, acesse a internet, tenha SMS, Bluetooth (e ainda complete as chamadas), o antigo não faz a barba*, por exemplo, mas o novo faz. O ilimitado me assusta, essa dependência tecnológica não qual vivo, e na qual acredito que você viva também.

O limite morreu. Agora são apenas as possibilidades. Todas as possibilidades. Desde a internet as coisas se expandiram para além dos olhos. Agora é possível. Mesmo que muitas vezes apenas de forma virtual, é possível. A internet é um poder onde as regras não regem, não há nenhuma padronização, acentuando essas tonalidades do invencível. Essa falta de regras prende, distorce a liberdade.

Eu estou totalmente inserido na rede, preso. Se o discador não funciona há toda uma comoção. Tenho Orkut, MSN, Skoob, e mais recentemente embarquei no Twitter, mesmo que esteja com extrema dificuldade em me adaptar a esse último; poucos caracteres que limitam, me limitam demais, já me acho bastante limitado pela natureza do meu ser e do meu estar. Embora haja sempre a possibilidade de continuar um mesmo assunto por diversos tweets, penso que isso descaracteriza a mídia. Estou constantemente diante de uma encruzilhada (drama). Ou seja, ou o limite não existe ou se apresenta em excesso, tá difícil encontrar um equilíbrio tecnológico.

No fim das contas, minha grande preocupação são os robôs.
Meu professor diz que estou estudando para ser jornalista, e o jornalista com tecnologia ou não, sempre terá campo de trabalho, trabalhamos com a informação; no papel ou na tela de um computador. Acho bonito e reconfortante, mas mesmo assim me preocupo. Semana passada, li a respeito de um robô em Tóquio. Até aí tudo bem. Mas esse não é um robô qualquer, é um robô em Tóquio que entrevista, tira fotos, pesquisa e publica matérias online. Um robô-repórter. Não gosto de robôs; tenho medo de robôs, quero que os robôs explodam. Se robôs entrevistam, daqui a pouco, eles pensam. E daí, estaremos a um passo do caos.

Gosto do moderno. Do novo. Das facilidades, de ter as coisas ao alcance da mão. E mesmo que não gostasse não haveria mais nenhuma possibilidade de se voltar atrás. O novo já chegou e não precisa da minha permissão. Só escrevo porque tenho vontade de pensar a respeito às vezes, sinto a necessidade de contar para alguém: que dá medo.

*Sentença inventada, sem nenhum embasamento científico.

terça-feira, 6 de abril de 2010

Literatura: "Eu mato" - Giorgio Faletti.

“O homem é um e nenhum. Há anos carrega a cara grudada na cabeça e a sombra presa aos pés e ainda não conseguiu descobrir qual das duas pesa mais.” O inusitado assassino de “Eu mato", do italiano Giorgio Faletti, é um homem perturbado, melodramático e preso a antigas feridas que não saram. Na sua lógica perturbadora e incompreensível, ele tem a morte e a música como suas únicas saídas, únicas formas de aplacar seu sofrimento. Assim, o assassino que se auto-intitula “Ninguém” mata e desfigura os rostos de suas vítimas, deixando, sempre antes dos ataques, enigmas na forma de músicas enviadas para um programa de Rádio.


Astuto, dono de uma inteligência bem acima da média, Ninguém tece sua trama de forma soberba, confundindo e brincando com os investigadores, que pela escassez de vestígios, ficam correndo atrás de sombras, de detalhes.


Uma trama inteligente, recheada de personagens originais, apresentados de forma nua e crua, cada qual com os seus demônios à mostra. A habilidade de Faletti para traçar perfis psicológicos constrange em certos pontos de tão realista e bem feita, são indivíduos traumatizados em diversos níveis e aspectos, e as conseqüências desses traumas são expostas na história de forma magistral. Um livro sobre a loucura, a perversidade e o mal, e que ainda assim, deu espaço para o amor, a amizade, a confiança... O autor leva a velha luta entre o bem e o mal a um novo patamar, leva à luta interna, pessoal, onde os personagens estão minuto a minuto tentando anular suas próprias abominações.



Giorgio Faletti nasceu em Novembro de 1950, no Piemont. Além de escritor, é comediante, compositor, cantor e tem formação em Direito. "Eu mato" foi o seu primeiro romance, publicado em 2002 e vendeu 4 milhões de exemplares na Itália. Em seguida publicou outros Romances, entre eles: "Niente di vero tranne gli occhi", "Fuori da un eviedente destino" e Pochi Inutili nascondigli", todos eles presentes na lista dos mais vendidos.

sábado, 3 de abril de 2010

Da Nova Infância.

Créditos da imagem: Galeria de JoSGo.

Não se fazem mais crianças como antigamente. E não, não estou falando do método, tal qual antes, as coisas continuam. Pelo menos do ponto de vista físico, do ponto de vista químico; atrações físicas, reações químicas. As matérias de sempre, os resultados de sempre. Os mesmos métodos, os mesmo filhos. É tudo tão idêntico que eu me pergunto quando mudou. Porque não se fazem mais crianças como antigamente, pelo menos não se criam mais da mesma forma. São outros tempos, outros meios de atravessar as fases, de atravessar a infância. O que me parece é que as crianças de hoje em dia ficam o tempo todo se distraindo, se mantendo ocupadas de frente pra TV. Não dá pra ser uma criança feliz hoje em dia. Concluí isso há algumas noites atrás, depois de uma aterradora visita à loja de doces do shopping com alguns amigos.

Quando penso na infância, penso em coisas pequenas que naquela época – pra mim, pareciam grandes. Eu mascava chiclete não porque gostasse, mas pra colecionar as figurinhas de Pokémon. Tomava coca-cola, juntava as tampinhas e ganhava um brinde, um gelouco, um gelo-cósmico, era uma infinidade de promoções estúpidas, todas elas, únicas, pra minha idade. Hoje, as promoções são outras – porque os tempos são outros, nunca esqueça – os brindes não sãos mais brindes, são presentes, coisas caras que se ganham em sorteios, celulares, laptops, qualquer coisa bem cara, que embora exceda em preço, não tem mais aquele ar de exclusivo, de colecionar. Não são prazeres pequenos como costumava ser. Era bom ser feliz assim, felicidade barata que não precisava pagar.

Mas paga. E paga caro, porque se naquela época eu pagava mísero um real – que pros meus oito anos era uma fortuna – num ovinho de chocolate com surpresinha dentro (vulgo Kinder Ovo), hoje custa cinco; e são só dois dedos de chocolate com um brinquedinho que nem se explica de tão sem graça. É muita exploração. Quadrinhos como os da Turma da Mônica, por exemplo, também não custavam muito mais que isso, no máximo uns dois reais, atualmente os preços se tornaram alguma espécie de absurdo que eu prefiro nem citar.

Nossos desenhos também eram muito mais legais. Caverna do Dragão, cujos finais previsíveis (todo mundo já sabia que eles nunca conseguiriam escapar) eram sempre emocionantes. Capitão Planeta, que embora eu não percebesse, já tentava conscientizar as pessoas sobre a preservação do ambiente. E os nossos Power Rangers eram muito mais interessantes, os inimigos eram mais sinistros, e no final quando o monstro não queria perder mesmo, surgia um robô gigante super-equipado que destruía tudo. Nada dessa parafernália de “Força Mística”, “Turbo”, “Força do tempo”. Não, eram simplesmente Os Power Rangers. Enfim, desenhos altamente culturais, pelo menos era o que eu pensava.

Não se fazem mais crianças como antigamente.
Bom mesmo era brincar na rua, correr, tomar banho de chuva, tocar campainha escondido, se fingir de doente na escola pra voltar pra casa e assistir Bambuluá. Bom mesmo era ter essas cumplicidades infantis, amizades inocentes, muitas delas que sucumbiram à idade e mesmo assim foram completas. Mas não se fazem mais crianças como antigamente. Não.

terça-feira, 30 de março de 2010

Cinema: "Bastardos Inglórios".

Quentin Tarantino vem produzindo uma seqüência de filmes absurdos desde a década de 90 quando alcançou rápido sucesso. No seu mais recente projeto, Bastardos Inglórios, Tarantino mostra que consegue explorar mais a fundo o inusitado e o absurdo ao apresentar uma visão totalmente inovadora de um tema tão antigo e tratado à exaustão, o Nazismo.

Aldo (Brad Pitt), o Apache, comanda um grupo de soldados americanos denominados pelo exército nazista de “Bastardos Inglórios”, todos descendentes de judeus, resolvem ir para a guerra em busca de vingança à sua raça. Entre eles estão: Donny Donowitz, um soldado particularmente violento, que estraçalha a cabeça de nazistas com um taco de basebol; e Hugo Stiglitz, ex-nazista pouco eloqüente que se junta aos bastardos depois de se descobrir talentoso para a função de assassino de soldados alemães.

Enquanto isso, Shossanna Dreyfus, um judia disfarça de francesa, arquiteta o seu próprio plano pra derrubar o partido nazista. Quando tinha 17 para 18 anos, escapou da morte nas mãos de Hans Landa (tenham medo), o caçador de judeus, um detetive astuto, encarregado de encontrar e eliminar todo qualquer judeu escondido naquela França dominada pelos alemães. Agora os dois vão se ver novamente no meio da morte, mas dessa vez, ela é quem pretende estar com a arma na mão.

Personagens que se cruzam e se separam. Embora dispersos, só há dois lados, judeus e nazistas, ambos homicidas e sem escrúpulos.

Pode-se dizer que a violência grotesca comum ao roteirista ficou um pouco em segundo plano dessa vez, não se vê o derramamento de sangue de Kill Bill. De qualquer forma, há sangue, há brutalidade e há a comédia violenta de Tarantino escorrendo pela tela durante as mais de duas horas de filme. As cenas longas, os diálogos inteligentes e por vezes incompreendidos recheiam a história enrolada e os muitos personagens. Os livros de História vão considerar o final um absurdo, um ultraje, o que não deixa de ser verdade. E independente disso – ou por isso justamente – o final é a melhor parte.

P.S: Christoph Waltz interpretando Hans Landa, foi premiado como melhor ator coadjuvante no Oscar e no Globo de Ouro, e no Festival de Cannes, por melhor ator.

domingo, 28 de março de 2010

Cinema: "Código de Conduta" e "Up - Altas Aventuras"

"CÓDIGO DE CONDUTA" (LAW ABIDING CITIZEN)

“Eu mato todo mundo” – diz o personagem de Gerard Butler num dos muitos diálogos geniais de “Código de Conduta”. Depois de ter sua casa invadida, sua mulher e filha assassinadas numa cena brutal nos primeiros minutos do filme, Clyde Shelton se vê injustiçado pelo sistema judiciário quando o promotor público Nick Rice (Jamie Foxx) entra num acordo com um dos assassinos, o libertando após uns poucos anos de reclusão. A inteligência e recursos ilimitados de Clyde o auxiliam num engenhoso plano a fim de pôr o sistema a baixo. Então ele mata. Mata com requintes de crueldade e uma genialidade perigosa a cada nível obscuro de seu plano aparentemente infalível. Assim, Clyde envolve o promotor Rice num perigoso jogo de acordos que se seguem a mais e mais mortes mesmo depois do assassino estar preso e isolado.

Um belo conjunto de ótimas interpretações, cenas bem montadas exprimindo a velocidade esperada do filme. E diálogos. Grandiosos diálogos que passam uma apreensão e um conjunto de pistas muito bem traçadas.

Uma fórmula comum abordada de uma nova ótica, gerando um filme fácil e interessante, que embora tenha um desfecho insatisfatório, vale a pedida.


"UP – ALTAS AVENTURAS" (UP)

O grande projeto de vida do casal Fredricksen é seguir uma vida de aventuras selvagens num paraíso perdido da América do Sul, mas o tempo vai passando, a idade se avança, tudo segue num cotidiano de casal comum para eles, até aquele dia inesquecível em que uma terrível doença leva a esposa à morte. Sozinho, Carl Fredricksen se enclausura em sua casinha, querendo se manter distante da vida e da felicidade alheia. Seu único interesse é guardar sua casa e suas lembranças. Mas o tempo, implacável mais uma vez, se passa. E a sociedade evolui, ultrapassando com seus prédios à dignidade da pequena casinha de madeira do infeliz e rabugento velho. Os empresários em seus ternos bacanas insistem continuamente para que o pobre Carl venda a sua propriedade, e ele sempre inflexível diz “não”. Mas os meios modernos, mais traiçoeiros do que ele poderia supor, conseguem ordem para enviá-lo para um asilo.

Na manhã de sua partida, Carl coloca o seu mais audacioso plano em ação, munido de centenas de balões de ar, ele parte em sua casa flutuante rumo ao desconhecido. A inesperada companhia do escoteiro Russel, de apenas 8 anos, trará de novo as aventuras da vida pro coração de um velho que já havia decidido não mais viver.

Bonito. O vencedor do prêmio de melhor animação do ano derrama-se numa carga dramática bastante incomum aos filmes que se dizem “infantis”. Indicado.

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