segunda-feira, 29 de agosto de 2011

TODAS AS COISAS IMENSAS ou O DINOSSAURO


Todos os direitos da imagem reservados a paolaTONELLI


I
Nasci da caridade dos meus pais que não se amavam, mas queriam ter filhos, porque seus pais tiveram filhos e foi mais ou menos assim que todo mundo na família nasceu, segundo as regras estabelecidas pelo social, pelos bons costumes e pelos olhares condescendentes das boas senhoras que viam meus pais e sorriam, pensando: sim, que linda família feliz. Umas velhas infelizes que também nunca tiveram um bom casamento, mas que tiveram filhos, que é o que importa. De qualquer forma, os dois formavam um belo par, meus pais, gente de respeito que apesar de desprezar o amor, era socialmente aceitável e aos olhos do mundo precisavam de um filho. Então, eu nasci. Já era feio desde o início, o que fez meu pai chorar por dias e dias sem fim. Chorava e resmungava: como é feio meu filho. Durante anos quis mais que tudo me lançar ao mar, não porque não me amasse, pois acho que amou no fim das contas, mas porque eu era feio e a beleza do mar o mergulhava numa melancolia doente. Meu pai era assim. Apaixonado pela superfície das águas sem nunca aprender a nadar, só dando importância ao que via, a imagem, porque as profundezas lhe enchiam de receios. Vai ver foi por isso que nunca olhou pra dentro de mim. Na verdade, com medo de se afogar nunca olhou pra dentro de ninguém. Viveu e morreu de aparências. Nem de velhice, nem de cansaço nem de doença, morreu de aparência. Velho, cansado e doente, mas mantendo as aparências até o final. Nasci da caridade dos meus pais, sobretudo, da minha mãe, que apesar do nojo que dedicava ao marido, permitiu ser tocada aquela única vez. A apatia a abateu aos vinte anos e desde então, desapegada da vida e dos carinhos, passou a alimentar a ideia cada vez mais fixa de morte. No entanto, quando teve de morrer já era velha, já era uma dessas que olhavam pros casais mais jovens e pensavam: que linda família feliz, se enganando e desejando um pouco daqueles sorrisos pra si. Às vezes, parecia que há muito tempo o coração já tinha perdido o sentido e a vontade. E mesmo assim quis ter um filho. Por caridade, como digo.

II
Das lembranças que ainda trago, me ocorre agora uma em particular que acredito ser o mais distante que minha memória alcança. Lá pelos cinco anos talvez, senão cinco, seis e senão seis, sete, mas não mais que isso. O resto que sei vem do que os meus pais me contavam e jamais soube nem saberei se são verdades, pois eles nunca foram conhecidos por serem especialmente sinceros, embora eu admita que dos mentirosos da família, o melhor sempre fui eu. Eu tinha pernas curtas. Pernas curtas e gordas que ficavam pendendo no ar enquanto eu, sentando na poltrona do meu pai, observava o jardim pela janela. Sempre tivemos um jardim bonito lá em casa, o maior responsável, eu diria, pela falsa sensação de felicidade que reinava em minha consciência infantil. Alimento até hoje essa ideia, sobretudo nas noites de porre, de que eu nunca teria percebido a dor se tivesse ficado ali pra sempre, encarando o jardim pela janela, encarando a grama e a imensidão das cores e da vida fértil, vida inconsciente de sua condição de vida, ignorante ao tempo, que passa e que leva e que desfaz tudo. Enfim, a ideia era permanecer distraído com a vastidão da paisagem, não dando atenção, como que por puro esquecimento, aos humanos e suas queixas eternas sobre a efemeridade das coisas e de tudo mais.
De qualquer forma, sempre acordava do meu jardim tranquilo pra dar de cara com a minha mãe ao meu lado, a apatia e a palidez dos olhos cansados que nessa época já não me viam mais, olhavam sempre para frente, pras paredes descascadas, mas coitada da velha, nem as paredes ela via, via talvez a si mesma, seu próprio sonho invisível e inalcançável de ser amada, de ser feliz. Como é que pode alguém que não é cega, deixar de ver de repente por pura opção?
Nunca entendi isso.
A velha encarando a parede e eu encarando a velha. Acho que é por pudor que sempre digo que foi carência, que foi desejo de ser visto, de ser finalmente encontrado por aqueles olhos vazios que fez de mim o mentiroso que sou hoje. Mas não, se tiver de ser absolutamente sincero – coisa que acredito nunca ter sido em minha vida inteira – tenho que confessar que menti naquele dia por um puro e irrestrito prazer de enganar. Foi a primeira vez que senti aquela vontade incontida, o desejo irrefreável de contar uma mentira banal, de dizer:
Olha, isso é verdade, acredite em mim – mesmo sabendo que não era. E eu sabia, mesmo criança eu sabia, mentir é feio, mentir é errado, o dedo do meu tio em minha cara admoestando-me ao comportamento adequado e padrão. Mas eu menti.
A partir de então, alimentei com minha língua venenosa a vontade cada vez mais latente de enganar alguém, vontade que mais tarde, eu chamaria de profissão.
Tem um dinossauro no nosso jardim, mamãe, tá esmagando suas petúnias – eu nunca soube o que eram petúnias, mas dinossauros eu sabia, e sabia também que eles não existiam, o que é muito relevante pra essa história.
Mamãe olhou pra mim com aquele seu jeito de olhar sem ver e disse:
Minhas petúnias, querido? Nunca tive petúnias...
Essas pessoas de almas cegas, incapazes de perceber imensos dinossauros diante de seus olhos de tão limitadas pela pequenez das petúnias inexistentes. Minha mãe era assim.
Naquela mesma noite, um pouco antes da hora de dormir, avisei à minha mãe pra tomar cuidado e deixar as luzes do meu quarto acesas, pois tinha uns elefantes subindo e descendo as escadas e eu estava preocupado, não com medo, entenda, preocupado, pois não podia ter certeza de suas intenções.
Talvez estejam apenas querendo esmagar minhas petúnias – ela disse.
Ao que eu, com uma naturalidade invejável aos grupos de teatro fracassados, respondi que não, pois todo mundo sabia que os elefantes eram infinitamente mais educados que os dinossauros. Minha mãe não disse mais nada, mas deixou uma luz acesa, pois não era afeita a grandes debates e sabia que eu podia ser bem insistente. Eu não dormia bem a noite, então lia debaixo dessa luminosidade amarela e pouca. Aprendi a ler muito cedo, isso bem antes de entrar pra escola, porque acho que essa é a sina das pessoas feias e pouco afoitas ao convívio social, ser pelo menos inteligente já que não sobrou mais nada. Eu lia muito, dos livros extensos e confusos aos cadernos e diários que roubava das menininhas bobas e esnobes da minha turma. Nem sempre entendi tudo, mas devorei linha por linha de cada título, talvez por causa do medo de acordar pra minha insônia, descobrir a verdade sobre minha falta de sono.
Depois dos elefantes, vieram os patos. A ideia era esconder coisas miúdas pela casa, sobretudo as joias caras da minha mãe, e culpar um astuto e improvável grupo de patos marginais pelos delitos. Mesmo previamente condenados à prisão perpétua, os patos nunca foram encontrados, as miudezas, entretanto, eram sempre vistas debaixo de um balde, de uma cama ou de outro esconderijo qualquer, tão pouco criativo quanto. Era a primeira vez que eu me deparava com um furo tão óbvio em minhas histórias. Nessa época, me faltava o devido apego aos detalhes. Faltava-me verossimilhança, mas na verdade eu ainda não conhecia nem essa palavra.
O fato é que um dia, por fim, descobri a existência dos ratos; um bocado de criaturinhas sebosas que vagavam pelo submundo, nesse caso, o porão lá de casa. Até então, ainda não havia me ocorrido a possibilidade de misturar mentira com verdade, mas foi isso que eu fiz. Ruí tudo aquela tarde, roupas de cama, vestidos, calças e paletós. Mexi na comida, espalhei pão mastigado pela casa e disse: detesto ratos e seus dentinhos sujos acabando com tudo. Minha mãe entrou em crise, disse que a casa estava condenada, moradia de bichos imundos, devoradores de migalhas e que não podia suportar tamanha desgraça. A apática, finalmente, histérica, de olhos arregalados gritando com meu pai. Dois dias depois, munido apenas de sua necessidade jamais abrandada de manter as aparências de corajoso homem do lar, meu pai desceu ao porão. Minha primeira obra-prima. Foi a última vez que vi minha mãe desperta, depois disso se encerrou em sua cegueira e nunca mais voltou de lá. Como ela adorava essas coisas pequenas, ratos e petúnias. Se pudesse ter visto a grandeza de outras coisas belas, mas enfim, não viu, não adianta lamentar.
            Descobri, portanto, que as mentiras pequenas eram incrivelmente mais eficazes que as exageradas, e também que muitas mentiras pequenas somadas originavam imensas mentiras infinitamente mais eficazes que uma grande sozinha. Por essa época, eu já devia ter quase dez anos e as pessoas me deixaram acreditar que eu podia ser um bom escritor.
 
III

Me apaixonei duas vezes nessa vida, mas acho que só a segunda eu realmente amei. Pelo menos é o que me parece agora, nesses dias em que olho pela janela e só encontro chuva e desapego. Às vezes penso que é só disso que sou capaz, olhar pela janela esperando alguma coisa que arredonde a vida, que feche esse meu ciclo. Mas é porque eu estou velho e velho tem dessas coisas, melancolia do inalcançável e vontade de ser jovem de novo. Juro que não entendo essa gente que diz que juventude é estado de espírito. Não me dão nada. De que me serve estado de espírito agora? Eu queria é que a dor nos ossos parasse de uma vez por todas. Mas não me dão nada. Acho que no fundo ninguém perdoa essas minhas lacunas, minha história que de um instante para o outro me escapa, foge de uma contagem natural. Não me foco em nada nem em tempo algum porque morro de medo da linearidade, da certeza do tempo que flui pra um lado só. Sou tão velho quanto já fui jovem, sou tão caduco quanto já fui menino, quanto já tive idade de me apegar às fragilidades da paixão, pois me apaixonei duas vezes nessa vida e só amei a segunda porque sei que ela me amou também. É meu egoísmo que me faz assim, um homem que só ama de volta e nada mais. Olho pra trás e me vejo. Eu tinha só quinze anos e um bocado de certezas de sucesso. Olhava o tempo todo pra frente porque nessa época a linearidade já me assombrava, por enquanto em forma de juventude demais. Já faziam quase três dias que meu pai tinha se trancado no quarto em companhia da vodca. Não abria a porta pra ninguém e bebia pra esquecer não sei exatamente o que. Era sempre assim, o velho sofria em silêncio por anos, guardando por trás de um sorriso hipócrita a angústia de sua vida que não deu certo, até que finalmente cedia a bebedeira e se acabava nas garrafas sem ter certeza do porquê sofria ou porquê fingia não sofrer. Foi por isso que na noite desse mesmo dia escrevi minha primeira história relativamente longa a respeito de um homem bêbado preso num quarto sem portas e janelas, claustrofóbico e incapaz de escapar da mediocridade de uma existência inútil. Nada mais nada menos que uma mentira incrivelmente verdadeira posta no papel.     A sensação de colocar aquele último ponto foi terrível, foi como dizer: acabou-se a história, mesmo sabendo que a história nunca se completa. No fim das contas, a história que se conta nunca é aquela que se inventa. Nunca escrevi bem, nunca me li com bons olhos, e mesmo hoje, ainda me assusta chegar a um final. Chegar a um final só dá vontade de começar de novo. Eu nunca me aceitei, foi por isso que também nunca gostei dos meus textos. Naquela noite, pensei muito nessas coisas e na vergonha que eu sentia de mostrar aquilo pra alguém. E se alguém visse o que eu escrevia? E se rissem de mim, se eu passasse por ridículo? Dali há duas semanas eu me apaixonaria pela primeira vez e descobriria essas respostas. A ela eu daria tudo.

IV

Meu pai era religioso. Nunca acreditou em Deus, mas como morria de medo de ir pro inferno dava excessivo valor aos padres e a imensidão das suas ofertas – suas doações, por assim dizer. Sempre achei isso tudo muito medieval, mas era o jeito dele de se sentir seguro nesse mundo. Veja bem, nesse mundo. Porque na verdade ele nunca compreendeu bem a existência de céu e inferno, era só precaução, dinheiro bem investido e aparências. Sempre as aparências.
            Pessoalmente sempre achei a fé muito mais sóbria que o ateísmo. Desde essa época já cria em Deus, o que meu pai não via com bons olhos. Acho que era coisa de religioso mesmo, eles adoram ter posse do que é divino, mas nunca se entregam a Deus.
            Ela chegou tarde. Entrou de mãos dadas com a mãe, a menina cega. De início, fiquei imaginando porque ela chorava. Ela era tão bonita. Na minha cabeça, não fazia sentido que as coisas bonitas sofressem. É que no começo eu não sabia que ela era cega. Eu senti que a amava quando ela sentou ao meu lado no banco da igreja, chorou o tempo inteiro, soluçava e eu me compadecia dela. Coitado de mim, não fazia ideia de todos os tons e nuances que separavam amor, paixão e todos os demais sentimentos que unem mulher e homem. Eu chamei de amor, mas eu mal sabia.
            Eu descobri que ela era cega porque ela não riu de mim, sabe, não riu do meu rosto, da minha aparência. Ela estava lá olhando pra mim sem ver e eu não senti vergonha. A esperei na porta, no fim. Ouvi quando o padre explicou pra velha que não era dom dele curá-la e sim dom de Deus. Ele as confortou por um instante e depois disse que eram os pecados delas, mãe e filha, que impediam a menina de enxergar. Elas eram imundas, ele disse. Elas choraram.
            Ah, as coisas que nos fazem acreditar.
            A mãe entrou com o padre. Procurava a carteira na bolsa, mas demorava a encontrar, acho que por relutância ou pela própria falta do que pagar. A cega sem saber sentou-se perto de mim nas escadas.
            Sabe, às vezes eu penso que tem muita coisa nesse mundo que é melhor não ver.
            Quem tá aí? – sussurrou.
            Eu só estava dizendo que talvez fosse melhor deixar pra lá, sabe, essa coisa toda de tristeza.
            Ela não disse nada. Meus dedos se mexeram em direção aos dela. Sempre tive medo da rejeição. Mas era medo do que as pessoas podiam ver em mim, não do que elas podiam ouvir, porque embora eu sempre tenha me mostrado inseguro a respeito das minhas palavras, lá no fundo, eu sempre achei que as dominasse, sempre achei que seria pelas palavras que as pessoas iam me amar. Lá no fundo, eu acreditava. Acreditava apesar da vergonha e da vergonha brotava meu orgulho. Então tive medo, porque embora eu fosse feio, ela não tinha como saber; tinha como ouvir, entretanto, o que eu falava e eu falava bem, vi isso em mim daquela vez.
            Tive medo. Mas ela pegou na minha mão e me salvou.

V

Eu tinha um coração imenso e vazio e ela veio e o preencheu, vamos colocar as coisas dessa forma sem exagerar no decoro ou na vergonha pelos deslumbramentos infantis. A solidão sempre foi uma bala de canhão na minha vida, mas ela segurava minhas mãos uma vez ou outra e eu me sentia bem. Era o tipo de coisa que ela fazia, segurar minhas mãos e o peso das minhas costas. Foi basicamente por isso que eu pensei que podia confiá-la minhas palavras, e as palavras eram tudo que eu tinha. Estávamos sentados sobre a grama úmida, um de frente pro outro, nossos joelhos se encontrando. Meu caderno estava aberto e eu a contava aquela história sobre o homem bêbado, o homem preso no quarto sem portas nem janelas incapaz de fugir de si mesmo e de sua própria dor. Eu li cada palavra, às vezes rubro,  às vezes altivo, orgulhoso, mas li cada palavra e no final olhei pra ela. Acho que ela me viu, com aquele jeito dela de me ver. Havia um silêncio terrível de respiração e suor escorrendo. Meu pomo de adão se mexeu duas vezes antes que ela se jogasse pra trás gargalhando, quebrando o silêncio e o encanto. No início, eu não entendi.
            Não faz sentido – ela disse. – Se não havia portas nem janelas, como o dinossauro engoliu o homem?
            Você não entendeu, o dinossauro era a solidão, eu quis dizer. Eu quis chorar também, mas eu só corri. Deixei o caderno cair e corri muito enquanto sentia minhas faces se avermelharem e queimarem meu orgulho. Folhas jogadas, coração partido. Meu medo do ridículo finalmente concreto. Era ridículo o menino correndo sem pensar na menina cega incapaz de voltar sozinha pra casa. Ela estava rindo e ele a abandonou ali. Ah, a vergonha sempre justificando as atrocidades humanas. Sem vergonha. Eu era um menino e eu quis correr, quis morrer, porque aos meninos sempre parece imensa qualquer derrota no amor. É que não viram nada da vida e pensam que vale a pena sofrer por cada pedaço de coração partido. As pessoas me deixaram acreditar que eu podia ser um bom escritor, por que fizeram isso?
           
Meu pai não caçava, mas na parede de seu escritório tinha uma arma pendurada, porque é muito masculino ter uma arma e um cachorro pra caçar. Lembro de ter pensado nisso naquele dia enquanto corria, enquanto pensava em morrer. Tchekhov uma vez disse que se há uma arma pendurada na parede no primeiro ato, você vai precisar descarregá-la até o fim da peça. Me faz pensar em como vou fazer pra usá-la antes de terminar essa história.

VI

Como você bem sabe, meu outro amor foi você, nunca lhe contei essas coisas porque tinha muito medo, não sei do que exatamente, mas tinha medo; lhe conheci já adulto, mas ainda agia como um idiota infantil em quase tudo. Ainda era muito só. Acordava sozinho, comia sozinho, dormia sozinho. Bebia exatamente dois litros de água por dia e ia a museus. Era aquele meu desejo de olhar pros dinossauros. Você chegou numa dessas tardes frias e úmidas em que até os bem amados têm vontade de chorar. Eu estava no museu com os braços cruzados atrás das costas quando você chegou ao meu lado. Eu te senti, mas não disse nada porque eu tive vergonha.
            Você vem sempre aqui? – teria parecido errado se eu dissesse, mas foi você quem disse e eu achei lindo.
            É. É quase como se fosse a minha casa, meu jardim...
            Então tem um dinossauro no seu jardim...
            Estava lá o tempo todo, mas só você que viu. É que alguns nascem pra domar dinossauros e outros pra regar petúnias. Simples assim.
VII

Me apaixonei duas vezes nessa vida, mas só amei você. Você me amou de volta. Já partiu faz tempo e ainda não terminei sua carta. Sempre te levo flores aos sábados, sábado que vem talvez eu deixe a carta lá sobre a pedra muda. Eu já sou muito velho e morrer nessa idade é um lucro imenso. Vi e ouvi muita coisa e em troca disso espalhei mentiras. Eu era muito inconsequente com as palavras, mas você sempre acreditou em mim. Vi a morte descendo de um trem ontem na estação, tem muita gente nessa cidade, não acho que eu tenha porque me preocupar. Mas tenho sentido ela cada vez mais perto. Imagino que vou morrer num sábado, pela manhã de preferência, depois da sua visita semanal, vou estar sentado na sala e vou vê-la chegando pela janela, vai caminhar pelo chão de barro até alcançar o jardim e esmagar as petúnias. Ela é simpática, a recebo bem. Não sei, sinto que será amistoso porque nessa idade já é um lucro imenso. A arma continua na parede, não a uso, mas no fim das contas, eu morro no final.      

Ramon Vitor Fernandes
25 de Agosto de 2011

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