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I
Nasci da caridade dos meus pais
que não se amavam, mas queriam ter filhos, porque seus pais tiveram filhos e
foi mais ou menos assim que todo mundo na família nasceu, segundo as regras
estabelecidas pelo social, pelos bons costumes e pelos olhares condescendentes
das boas senhoras que viam meus pais e sorriam, pensando: sim, que linda família feliz. Umas velhas infelizes que também
nunca tiveram um bom casamento, mas que tiveram filhos, que é o que importa. De
qualquer forma, os dois formavam um belo par, meus pais, gente de respeito que
apesar de desprezar o amor, era socialmente aceitável e aos olhos do mundo
precisavam de um filho. Então, eu nasci. Já era feio desde o início, o que fez
meu pai chorar por dias e dias sem fim. Chorava e resmungava: como é feio meu filho. Durante anos quis
mais que tudo me lançar ao mar, não porque não me amasse, pois acho que amou no
fim das contas, mas porque eu era feio e a beleza do mar o mergulhava numa
melancolia doente. Meu pai era assim. Apaixonado pela superfície das águas sem
nunca aprender a nadar, só dando importância ao que via, a imagem, porque as
profundezas lhe enchiam de receios. Vai ver foi por isso que nunca olhou pra
dentro de mim. Na verdade, com medo de se afogar nunca olhou pra dentro de
ninguém. Viveu e morreu de aparências. Nem de velhice, nem de cansaço nem de
doença, morreu de aparência. Velho, cansado e doente, mas mantendo as
aparências até o final. Nasci da caridade dos meus pais, sobretudo, da minha
mãe, que apesar do nojo que dedicava ao marido, permitiu ser tocada aquela
única vez. A apatia a abateu aos vinte anos e desde então, desapegada da vida e
dos carinhos, passou a alimentar a ideia cada vez mais fixa de morte. No
entanto, quando teve de morrer já era velha, já era uma dessas que olhavam pros
casais mais jovens e pensavam: que linda
família feliz, se enganando e desejando um pouco daqueles sorrisos pra si.
Às vezes, parecia que há muito tempo o coração já tinha perdido o sentido e a
vontade. E mesmo assim quis ter um filho. Por caridade, como digo.
II
Das lembranças que ainda trago,
me ocorre agora uma em particular que acredito ser o mais distante que minha
memória alcança. Lá pelos cinco anos talvez, senão cinco, seis e senão seis,
sete, mas não mais que isso. O resto que sei vem do que os meus pais me
contavam e jamais soube nem saberei se são verdades, pois eles nunca foram
conhecidos por serem especialmente sinceros, embora eu admita que dos
mentirosos da família, o melhor sempre fui eu. Eu tinha pernas curtas. Pernas
curtas e gordas que ficavam pendendo no ar enquanto eu, sentando na poltrona do
meu pai, observava o jardim pela janela. Sempre tivemos um jardim bonito lá em
casa, o maior responsável, eu diria, pela falsa sensação de felicidade que
reinava em minha consciência infantil. Alimento até hoje essa ideia, sobretudo
nas noites de porre, de que eu nunca teria percebido a dor se tivesse ficado
ali pra sempre, encarando o jardim pela janela, encarando a grama e a imensidão
das cores e da vida fértil, vida inconsciente de sua condição de vida,
ignorante ao tempo, que passa e que leva e que desfaz tudo. Enfim, a ideia era
permanecer distraído com a vastidão da paisagem, não dando atenção, como que
por puro esquecimento, aos humanos e suas queixas eternas sobre a efemeridade
das coisas e de tudo mais.
De
qualquer forma, sempre acordava do meu jardim tranquilo pra dar de cara com a
minha mãe ao meu lado, a apatia e a palidez dos olhos cansados que nessa época
já não me viam mais, olhavam sempre para frente, pras paredes descascadas, mas coitada
da velha, nem as paredes ela via, via talvez a si mesma, seu próprio sonho
invisível e inalcançável de ser amada, de ser feliz. Como é que pode alguém que
não é cega, deixar de ver de repente por pura opção?
Nunca
entendi isso.
A
velha encarando a parede e eu encarando a velha. Acho que é por pudor que
sempre digo que foi carência, que foi desejo de ser visto, de ser finalmente
encontrado por aqueles olhos vazios que fez de mim o mentiroso que sou hoje.
Mas não, se tiver de ser absolutamente sincero – coisa que acredito nunca ter
sido em minha vida inteira – tenho que confessar que menti naquele dia por um
puro e irrestrito prazer de enganar. Foi a primeira vez que senti aquela
vontade incontida, o desejo irrefreável de contar uma mentira banal, de dizer:
— Olha, isso é verdade, acredite
em mim – mesmo sabendo que não era. E eu sabia, mesmo criança eu sabia, mentir é feio, mentir é errado, o dedo
do meu tio em minha cara admoestando-me ao comportamento adequado e padrão. Mas
eu menti.
A
partir de então, alimentei com minha língua venenosa a vontade cada vez mais
latente de enganar alguém, vontade que mais tarde, eu chamaria de profissão.
— Tem um dinossauro no nosso
jardim, mamãe, tá esmagando suas petúnias – eu nunca soube o que eram petúnias,
mas dinossauros eu sabia, e sabia também que eles não existiam, o que é muito
relevante pra essa história.
Mamãe
olhou pra mim com aquele seu jeito de olhar sem ver e disse:
— Minhas petúnias, querido? Nunca
tive petúnias...
Essas
pessoas de almas cegas, incapazes de perceber imensos dinossauros diante de
seus olhos de tão limitadas pela pequenez das petúnias inexistentes. Minha mãe
era assim.
Naquela
mesma noite, um pouco antes da hora de dormir, avisei à minha mãe pra tomar
cuidado e deixar as luzes do meu quarto acesas, pois tinha uns elefantes
subindo e descendo as escadas e eu estava preocupado, não com medo, entenda,
preocupado, pois não podia ter certeza de suas intenções.
— Talvez estejam apenas querendo
esmagar minhas petúnias – ela disse.
Ao que
eu, com uma naturalidade invejável aos grupos de teatro fracassados, respondi
que não, pois todo mundo sabia que os elefantes eram infinitamente mais
educados que os dinossauros. Minha mãe não disse mais nada, mas deixou uma luz
acesa, pois não era afeita a grandes debates e sabia que eu podia ser bem
insistente. Eu não dormia bem a noite, então lia debaixo dessa luminosidade
amarela e pouca. Aprendi a ler muito cedo, isso bem antes de entrar pra escola,
porque acho que essa é a sina das pessoas feias e pouco afoitas ao convívio
social, ser pelo menos inteligente já que não sobrou mais nada. Eu lia muito,
dos livros extensos e confusos aos cadernos e diários que roubava das
menininhas bobas e esnobes da minha turma. Nem sempre entendi tudo, mas devorei
linha por linha de cada título, talvez por causa do medo de acordar pra minha
insônia, descobrir a verdade sobre minha falta de sono.
Depois
dos elefantes, vieram os patos. A ideia era esconder coisas miúdas pela casa,
sobretudo as joias caras da minha mãe, e culpar um astuto e improvável grupo de
patos marginais pelos delitos. Mesmo previamente condenados à prisão perpétua,
os patos nunca foram encontrados, as miudezas, entretanto, eram sempre vistas
debaixo de um balde, de uma cama ou de outro esconderijo qualquer, tão pouco
criativo quanto. Era a primeira vez que eu me deparava com um furo tão óbvio em
minhas histórias. Nessa época, me faltava o devido apego aos detalhes.
Faltava-me verossimilhança, mas na verdade eu ainda não conhecia nem essa
palavra.
O fato
é que um dia, por fim, descobri a existência dos ratos; um bocado de
criaturinhas sebosas que vagavam pelo submundo, nesse caso, o porão lá de casa.
Até então, ainda não havia me ocorrido a possibilidade de misturar mentira com
verdade, mas foi isso que eu fiz. Ruí tudo aquela tarde, roupas de cama,
vestidos, calças e paletós. Mexi na comida, espalhei pão mastigado pela casa e
disse: detesto ratos e seus dentinhos
sujos acabando com tudo. Minha mãe entrou em crise, disse que a casa estava
condenada, moradia de bichos imundos, devoradores de migalhas e que não podia
suportar tamanha desgraça. A apática, finalmente, histérica, de olhos
arregalados gritando com meu pai. Dois dias depois, munido apenas de sua
necessidade jamais abrandada de manter as aparências de corajoso homem do lar,
meu pai desceu ao porão. Minha primeira obra-prima. Foi a última vez que vi
minha mãe desperta, depois disso se encerrou em sua cegueira e nunca mais
voltou de lá. Como ela adorava essas coisas pequenas, ratos e petúnias. Se
pudesse ter visto a grandeza de outras coisas belas, mas enfim, não viu, não
adianta lamentar.
Descobri,
portanto, que as mentiras pequenas eram incrivelmente mais eficazes que as
exageradas, e também que muitas mentiras pequenas somadas originavam imensas
mentiras infinitamente mais eficazes que uma grande sozinha. Por essa época, eu
já devia ter quase dez anos e as pessoas me deixaram acreditar que eu podia ser
um bom escritor.
III
Me apaixonei duas vezes nessa
vida, mas acho que só a segunda eu realmente amei. Pelo menos é o que me parece
agora, nesses dias em que olho pela janela e só encontro chuva e desapego. Às
vezes penso que é só disso que sou capaz, olhar pela janela esperando alguma
coisa que arredonde a vida, que feche esse meu ciclo. Mas é porque eu estou
velho e velho tem dessas coisas, melancolia do inalcançável e vontade de ser
jovem de novo. Juro que não entendo essa gente que diz que juventude é estado
de espírito. Não me dão nada. De que me serve estado de espírito agora? Eu
queria é que a dor nos ossos parasse de uma vez por todas. Mas não me dão nada.
Acho que no fundo ninguém perdoa essas minhas lacunas, minha história que de um
instante para o outro me escapa, foge de uma contagem natural. Não me foco em
nada nem em tempo algum porque morro de medo da linearidade, da certeza do
tempo que flui pra um lado só. Sou tão velho quanto já fui jovem, sou tão
caduco quanto já fui menino, quanto já tive idade de me apegar às fragilidades
da paixão, pois me apaixonei duas vezes nessa vida e só amei a segunda porque
sei que ela me amou também. É meu egoísmo
que me faz assim, um homem que só ama de volta e nada mais. Olho pra trás e
me vejo. Eu tinha só quinze anos e um bocado de certezas de sucesso. Olhava o
tempo todo pra frente porque nessa época a linearidade já me assombrava, por
enquanto em forma de juventude demais. Já faziam quase três dias que meu pai
tinha se trancado no quarto em companhia da vodca. Não abria a porta pra
ninguém e bebia pra esquecer não sei exatamente o que. Era sempre assim, o velho
sofria em silêncio por anos, guardando por trás de um sorriso hipócrita a
angústia de sua vida que não deu certo, até que finalmente cedia a bebedeira e
se acabava nas garrafas sem ter certeza do porquê sofria ou porquê fingia não
sofrer. Foi por isso que na noite desse mesmo dia escrevi minha primeira
história relativamente longa a respeito de um homem bêbado preso num quarto sem
portas e janelas, claustrofóbico e incapaz de escapar da mediocridade de uma
existência inútil. Nada mais nada menos que uma mentira incrivelmente
verdadeira posta no papel. A sensação
de colocar aquele último ponto foi terrível, foi como dizer: acabou-se a
história, mesmo sabendo que a história nunca se completa. No fim das contas, a
história que se conta nunca é aquela que se inventa. Nunca escrevi bem, nunca
me li com bons olhos, e mesmo hoje, ainda me assusta chegar a um final. Chegar
a um final só dá vontade de começar de novo. Eu nunca me aceitei, foi por isso
que também nunca gostei dos meus textos. Naquela noite, pensei muito nessas
coisas e na vergonha que eu sentia de mostrar aquilo pra alguém. E se alguém
visse o que eu escrevia? E se rissem de mim, se eu passasse por ridículo? Dali
há duas semanas eu me apaixonaria pela primeira vez e descobriria essas respostas.
A ela eu daria tudo.
IV
Meu pai
era religioso. Nunca acreditou em Deus, mas como morria de medo de ir pro
inferno dava excessivo valor aos padres e a imensidão das suas ofertas – suas
doações, por assim dizer. Sempre achei isso tudo muito medieval, mas era o
jeito dele de se sentir seguro nesse mundo. Veja bem, nesse mundo. Porque na
verdade ele nunca compreendeu bem a existência de céu e inferno, era só
precaução, dinheiro bem investido e aparências. Sempre as aparências.
Pessoalmente sempre achei a fé muito
mais sóbria que o ateísmo. Desde essa época já cria em Deus, o que meu pai não
via com bons olhos. Acho que era coisa de religioso mesmo, eles adoram ter
posse do que é divino, mas nunca se entregam a Deus.
Ela chegou tarde. Entrou de mãos
dadas com a mãe, a menina cega. De início, fiquei imaginando porque ela
chorava. Ela era tão bonita. Na minha cabeça, não fazia sentido que as coisas
bonitas sofressem. É que no começo eu não sabia que ela era cega. Eu senti que
a amava quando ela sentou ao meu lado no banco da igreja, chorou o tempo
inteiro, soluçava e eu me compadecia dela.
Coitado de mim, não fazia ideia de todos os tons e nuances que separavam amor, paixão
e todos os demais sentimentos que unem mulher e homem. Eu chamei de amor, mas
eu mal sabia.
Eu descobri que ela era cega porque
ela não riu de mim, sabe, não riu do meu rosto, da minha aparência. Ela estava
lá olhando pra mim sem ver e eu não senti vergonha. A esperei na porta, no fim.
Ouvi quando o padre explicou pra velha que não era dom dele curá-la e sim dom
de Deus. Ele as confortou por um instante e depois disse que eram os pecados
delas, mãe e filha, que impediam a menina de enxergar. Elas eram imundas, ele
disse. Elas choraram.
Ah, as coisas que nos fazem
acreditar.
A mãe entrou com o padre. Procurava a carteira na bolsa,
mas demorava a encontrar, acho que por relutância ou pela própria falta do que
pagar. A cega sem saber sentou-se perto de mim nas escadas.
— Sabe, às vezes eu penso que tem
muita coisa nesse mundo que é melhor não ver.
— Quem
tá aí? – sussurrou.
— Eu
só estava dizendo que talvez fosse melhor deixar pra lá, sabe, essa coisa toda
de tristeza.
Ela não disse nada. Meus dedos se
mexeram em direção aos dela. Sempre tive medo da rejeição. Mas era medo do que
as pessoas podiam ver em mim, não do que elas podiam ouvir, porque embora eu
sempre tenha me mostrado inseguro a respeito das minhas palavras, lá no fundo,
eu sempre achei que as dominasse, sempre achei que seria pelas palavras que as
pessoas iam me amar. Lá no fundo, eu acreditava. Acreditava apesar da vergonha
e da vergonha brotava meu orgulho. Então tive medo, porque embora eu fosse
feio, ela não tinha como saber; tinha como ouvir, entretanto, o que eu falava e
eu falava bem, vi isso em mim daquela vez.
Tive medo. Mas ela pegou na minha
mão e me salvou.
V
Eu tinha um coração imenso
e vazio e ela veio e o preencheu, vamos colocar as coisas dessa forma sem
exagerar no decoro ou na vergonha pelos deslumbramentos infantis. A solidão
sempre foi uma bala de canhão na minha vida, mas ela segurava minhas mãos uma
vez ou outra e eu me sentia bem. Era o tipo de coisa que ela fazia, segurar
minhas mãos e o peso das minhas costas. Foi basicamente por isso que eu pensei
que podia confiá-la minhas palavras, e as palavras eram tudo que eu tinha.
Estávamos sentados sobre a grama úmida, um de frente pro outro, nossos joelhos
se encontrando. Meu caderno estava aberto e eu a contava aquela história sobre
o homem bêbado, o homem preso no quarto sem portas nem janelas incapaz de fugir
de si mesmo e de sua própria dor. Eu li cada palavra, às vezes rubro, às vezes altivo, orgulhoso, mas li cada
palavra e no final olhei pra ela. Acho que ela me viu, com aquele jeito dela de
me ver. Havia um silêncio terrível de respiração e suor escorrendo. Meu pomo de
adão se mexeu duas vezes antes que ela se jogasse pra trás gargalhando, quebrando
o silêncio e o encanto. No início, eu não entendi.
— Não faz sentido – ela
disse. – Se não havia portas nem janelas, como o dinossauro engoliu o homem?
Você não entendeu, o
dinossauro era a solidão, eu quis dizer. Eu quis chorar também, mas eu só corri. Deixei o
caderno cair e corri muito enquanto sentia minhas faces se avermelharem e queimarem
meu orgulho. Folhas jogadas, coração partido. Meu medo do ridículo finalmente
concreto. Era ridículo o menino correndo sem pensar na menina cega incapaz de voltar
sozinha pra casa. Ela estava rindo e ele a abandonou ali. Ah, a vergonha sempre
justificando as atrocidades humanas. Sem vergonha. Eu era um menino e eu quis
correr, quis morrer, porque aos meninos sempre parece imensa qualquer derrota
no amor. É que não viram nada da vida e pensam que vale a pena sofrer por cada
pedaço de coração partido. As pessoas me
deixaram acreditar que eu podia ser um bom escritor, por que fizeram isso?
Meu pai não caçava, mas na
parede de seu escritório tinha uma arma pendurada, porque é muito masculino ter
uma arma e um cachorro pra caçar. Lembro de ter pensado nisso naquele dia
enquanto corria, enquanto pensava em morrer. Tchekhov uma vez disse que se há
uma arma pendurada na parede no primeiro ato, você vai precisar descarregá-la
até o fim da peça. Me faz pensar em como vou fazer pra usá-la antes de terminar
essa história.
VI
Como você bem sabe, meu
outro amor foi você, nunca lhe contei essas coisas porque tinha muito medo, não
sei do que exatamente, mas tinha medo; lhe conheci já adulto, mas ainda agia
como um idiota infantil em quase tudo. Ainda era muito só. Acordava sozinho,
comia sozinho, dormia sozinho. Bebia exatamente dois litros de água por dia e
ia a museus. Era aquele meu desejo de olhar pros dinossauros. Você chegou numa
dessas tardes frias e úmidas em que até os bem amados têm vontade de chorar. Eu
estava no museu com os braços cruzados atrás das costas quando você chegou ao
meu lado. Eu te senti, mas não disse nada porque eu tive vergonha.
— Você vem sempre aqui? –
teria parecido errado se eu dissesse, mas foi você quem disse e eu achei lindo.
— É. É quase como se fosse a
minha casa, meu jardim...
— Então tem um dinossauro no
seu jardim...
Estava lá o tempo todo, mas só você que viu. É que alguns
nascem pra domar dinossauros e outros pra regar petúnias. Simples assim.
VII
Me apaixonei duas vezes
nessa vida, mas só amei você. Você me amou de volta. Já partiu faz tempo e
ainda não terminei sua carta. Sempre te levo flores aos sábados, sábado que vem
talvez eu deixe a carta lá sobre a pedra muda. Eu já sou muito velho e morrer
nessa idade é um lucro imenso. Vi e ouvi muita coisa e em troca disso espalhei
mentiras. Eu era muito inconsequente com as palavras, mas você sempre acreditou
em mim. Vi a morte descendo de um trem ontem na estação, tem muita gente nessa
cidade, não acho que eu tenha porque me preocupar. Mas tenho sentido ela cada
vez mais perto. Imagino que vou morrer num sábado, pela manhã de preferência,
depois da sua visita semanal, vou estar sentado na sala e vou vê-la chegando
pela janela, vai caminhar pelo chão de barro até alcançar o jardim e esmagar as
petúnias. Ela é simpática, a recebo bem. Não sei, sinto que será amistoso
porque nessa idade já é um lucro imenso. A arma continua na parede, não a uso,
mas no fim das contas, eu morro no final.
Ramon Vitor Fernandes
25 de Agosto de 2011




6 opiniões sobre isso...:
Pô, sensacional companheiro, depois do que li não sei o que dizer, apenas que essas palavras suas falaram por vc , por mim e por muitas pessoas.
Parabéns mais uma vez, grande escrito!
Se eu lesse isso em um livro, encapado, e com mais quinhentas folhas não seria a mesma coisa... E como sei que você sabe que escreve bem, receberá isso como um elogio!=*
Como eu já disse, vou guardar esse para aqueles momentos de dúvidas sobre o seu dom. Perfeito. Já falei mil vezes, mas nem canso. Porque é verdade.
O mundo será um lugar mais bonito quando você encontrar alguém que também veja dinossauros no seu jardim. E não apenas as petunias que nunca tivemos.
Um beijo.
Sabe aquele sorriso de criança quando fica feliz por que sabe de alfo, mesmo que todo mundo tenha descoberto primeiro que ela?!
PS: É comum ter dinossauros em museus, já petúnias...
Uma dose grande de desconforto, em um raciocínio simples porém perturbado. Ou seria perturbador. Observações claras atrás de um ponto de vista sem futuro. Com um presente inconsistente. Uma camada densa de expressões e virgulas que tiram a linha da vida do lugar e faz tudo mais difícil.
Muito bom o texto!
O difícil não é ver os dinossauros, mas talvez acreditar que esteja vendo. Não querer ver é mais fácil, mas e as consequencias?
Muito, muito bom (como se você nunca tivesse ouvido isso).
Primeiro vez que leio algo seu e já posso dizer que você ganhou mais uma admiradora.
Me encontrei em vários momentos da história.
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