(Um dos meus textos mais antigos, mas que acabou depois de tanto tempo, ganhando aqui lugar.)
Entre tantas outras coisas espalhadas pelo chão do apartamento apertado, estavam o menino e o casaco verde. O pequeno encarava o teto com a impaciência típica da infância. Puxou o casaco verde da mãe para perto de si e o abraçou, um dos tantos artifícios que desenvolvera para não se sentir só quando só estivesse.— Lucas – disse o pai – se você não tem um cachorro, há motivos para isso, acredite.
— E se eu quero um cachorro também deve haver motivos para isso. – rebateu o pequeno.
— E que motivos seria, afinal?
— Ora são tantos...
— Não pense nessas coisas, você não pode ter um cachorro. Não há espaço.
— E um gato? – o menino insistiu.
— Bicho nenhum. – interveio o abajur a favor do pai – Lucas, não há espaço. E muito menos tempo. Sua mãe mal pode cuidar da casa, o que dirá de um bicho. Conforme-se!
O menino emburrou-se e não falou mais nada. De certa forma, os argumentos faziam sentido.
Foi o pai quem quebrou o silêncio:
— Hoje eu tenho barba... Por quê?
Lucas quis permanecer emburrado. E até o fez por uns segundos, mas logo o desejo do diálogo o impediu de resistir.
— Meu colega diz que o pai dele tem uma barba grande. E se ele diz é porque todos os pais têm. Você tem que ter também, senão eu invento outro pai.
— Não é pra tanto. – novamente o abajur entrava em defesa.
Ouviu-se um barulho na fechadura da porta. A mãe estava chegando, o pai atravessou a parede e sumiu. Apressado, o menino fez sinal para o abajur calar a boca. O pequeno não gostava que a mãe os visse conversando, ela tinha problemas com o pai e quase nunca entendia o que o abajur tinha a dizer, ele não a culpava. Mas já bastava de esforços. Era melhor que ela ficasse de fora do seu mundinho pessoal.
Só um pouco.
Afinal ela era tudo que ele tinha num mundo de verdade.
A mãe entrou em casa e o olhou ali no chão, ele virou a cabeça para olhá-la e sorriu.
— Por que voltou da escola com a vizinha, filho? Eu falei que ia te pegar. – ela disse enquanto deitava no chão ao lado dele.
— Esqueci – falou isso olhando para o teto – desculpe.
— Eu demorei de novo, não é?
— Só um pouco. Não se preocupe, mãe. – ainda olhava para o teto, não quis encará-la.
— Me perdoe se às vezes eu tenho que trabalhar muito.
— Não é culpa sua.
Os olhos se encontraram.
Ambos estavam tristes. Mas ninguém viu.
A mãe chamava-se Diana, mas dizia a todo mundo que seu nome era Clarissa. E quando às vezes Lucas se enganava e a revelava pelo nome verdadeiro, ela o olhava com um semblante estranho e ele se repreendia pelo erro. Nas vezes que a questionou sobre isso, ela o disse que era algo que não se explicava e que era melhor esquecer. Lucas não quis insistir, embora já soubesse que era algo sobre seu pai. Estavam fugindo dele. O pequeno Lucas nunca o conheceu e todas as coisas que sabia sobre o seu progenitor eram: um homem ruim e que não tinha barba, o que já eram motivos suficientes para querê-lo longe. Assim, ele seguia as regras, e sempre que podia se esgueirava para seu mundo interior onde tinha um pai perfeito e conversava com as coisas, e de todos os objetos amava o sofá mais que os outros, pois era o único que o pegava no colo.
— Vai ficar comigo hoje à noite? – ele disse.
— Fico. O tempo que você quiser. Não tem trabalho hoje, somos só nós dois.
Os olhos dele brilharam quando ela o puxou pra perto num abraço. Foi isso que trouxe à realidade um pouco da alegria imaginária.




8 opiniões sobre isso...:
nossa..incrivelmete fantastic
me faz chorar aki...
E quando a gente se sente só, sabe que só a imaginação preenche o vazio que há por perto. Quando as coisas realmente acontecem, fica a duvida se foi história sonhada ou vivida.
Os Lucas dessa vida mereciam mais que um casaco verde e mais que um pai-abajour-barbado.
Texto forte. Uma mistura de sentimentos. O que mais emociona é ver que mesmo estando triste, ele fica com um brilho nos olhos só de ver um sorriso, e uma oportunidade de não ser tão só.
P.S: Não to falando nada com nada... Serios problemas. Vou cuidar logo disso. Não gosto de ficar sem pensar direito.
Lindo.
Beijos
há varios escapes pra qdo nos sentimos sós...
eu me identifiquei muito com esse texto! ele é brilhante.
*bjoO!
=]
Voltarei sempre aqui... afinal o que é bom tem que ser lido, relido... "recontado"...bjO
Parabéns pelo texto! Impactante, emocionante...
Muito bom seu blog cara, parabéns mesmo!!
Kra mais q tudo nesse momento q estou vivendo a imaginação está sendo uma de minhas companhias mais fiéis, esse seu texto veio até mim numa hora muito boa.
Ótimo texto kra.
Vlew :D.
"e de todos os objetos amava o sofá mais que os outros, pois era o único que o pegava no colo."
que fofo isso... aiaii...
Eu que tive uma amiga imaginária e que nunca desfiz esse mundo meu, encantei-me mais uma vez com seu texto.
Gosto das coisas que vc deixa implícito...
Menino besta e talentoso.
=P
Se a minha impressão importa, eu gostei deste texto que tem a cara do meu dia hoje, frio, chuvinha e a gente carente de abraços!!!
^^
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