quarta-feira, 13 de janeiro de 2010

Nas palavras piegas de Noé.








40 dias e 40 noites depois daquela terça-feira fatídica, o sol volta a brilhar. E no número 207 do menor edifício da rua mais estreita daquela cidade pequena demais, Noé acorda indisposto. Indisposto e tarde. Tarde demais. Felizmente ele não tinha compromisso, nunca tinha.
Ainda de rosto amassado e a cabelos mais desgrenhados que o comum, ele se senta para escrever. E ali de frente para o computador escreve... escreve sobre ele mesmo sentado escrevendo. Faz isso por dias e dias. Sem fim.

* * *

Quando finalmente sua fome torna-se maior que os seus longos dedos sobre as teclas, ele decide sair. Uma decisão difícil e demorada, mas que depois de feita, o faz sair às pressas.
De apressado não repara. Não pára pra ver que algo incomum acontece. Que a moça feia do 206 está à porta, sentada. Noé não vê. Mas se visse, ficaria surpreso. Confuso até.

Ela não sai. Nunca. A moça feia do 206 tem medo de sair de casa, medo do lado de fora, das pessoas à sua volta, do tempo, do vento. De tudo. Tem medo do mal do lado de fora, como se o mal não estivesse também por dentro, por dentro dela.

Mas não Noé. Noé não é medroso, é inseguro, tem alguma diferença. Do lado de fora, caminha pela calçada na mesma pressa que o fez sair de casa, na pressa cega com a qual passou no corredor, aquela pressa cega que não veria nada. Nada, a não ser Ela.
E é Ela.
Ela que ele vê saindo pela porta da cafeteria poucos minutos antes que ele mesmo alcançasse a mesma porta. Ele estanca. Ela anda, cabelos ao vento como seria num filme, num livro ou numa crônica...
Enquanto Ela se afasta, ele pensa. Talvez seja a fome, o cansaço ou os dedos trêmulos de tanto escrever, mas age por impulso. Impulsionado pela pouca coragem que há dentro dele, A segue.

* * *

Talvez seja o momento certo para mencionar que ele é escritor, não que isso explique alguma coisa. Explicaria muita coisa se ele fosse alcoólatra ou se sofresse abuso dos pais. Explicaria muita coisa se ele tivesse alguma doença congênita fatal ou fumasse exacerbadamente. Mas não. Nada explica, ele não se explica. E mesmo assim é escritor, um bom escritor aliás, e como muitos bons escritores, escreveu uma dúzia de livros que ninguém lê. Feliz ou infelizmente seu editor é cego e adora ler os livros de Noé, vai entender...
Mas nada explica.
Nada explica sua obsessão insegura por Ela, a seguindo pela rua como se fosse um direito seu depois de tudo. Como se fosse normal...
Então, Ela pára. De súbito. Se vira e o encara.
Olhos nos olhos como da outra vez. E como da outra e vez e todas as vezes que virão a se seguir a esse momento atual, ele trava e engole todas as palavras que pretendia dizer.
— Tá me seguindo? – diz Ela neutra.
— Desculpa.
— Tá me assustando.
— Desculpa.
— Pára com isso, então. Tá bom?
— Não, não tá. Mas... eu paro.
E Ela vai.
Ele fica. Desfazendo o laço e repetindo uma sina eterna entre dois corações.

* * *

Ele não comeu, afinal.
Voltou pra casa quieto, os olhos grudados no chão, que de tão grudados não poderiam deixar de ver a moça feia do 206 sentada no chão... no vão... da porta.
Ele olhou pros medos dela. E ela pra tristeza dele. Depois os dois entraram cada qual na sua porta e as fecharam.

* * *

Dias e dias sem fim se passam e ali está Noé sentado e escrevendo, escrevendo sobre ele mesmo sentado e escrevendo. Pensa no que fazer pela sua própria vida, no que escrever pra mudá-la, mas não sabe. Em algum momento tenta escrever sobre ele mesmo enviando um pombo em busca de terras melhores, mas lembra de já ter lido isso em algum lugar, e temendo o plágio, põe um ponto final.

7 opiniões sobre isso...:

Vanessa Dantas disse...

Como eu havia dito... Dá uma tristeza ler sobre ele. Dá pena. Mas não deixa de ser bom por isso. Tive que reler pra poder entender.

Ela me assusta mais que Ele. Bem mais.

''Ele olhou pros medos dela. E ela pra tristeza dele''

Essa moça do 206... Fiquei curiosa.

--

Enfim... Já tinha comentado tanto no msn que fico sem saber o que postar, pra não me tornar repetitiva.

Gostei muito!

Beijos!

keu_azevedo disse...

Hummm adorei a moça feia do 206!
Excelente personagem...espero vê-la mais vezes.
Adoro o Noé, isso é fato. Fico com vontade de cuidar dele hehehe.
E nessa continuação ele me lembrou ainda mais um mocinho talentoso que conheço...
Adoro as referências a um outro Noé que conhecemos, bem boladas.
e já não gosto dessa moça fria do café.
Garanto que se ela deixasse, Noé aqueceria aquele coração úmido e vazio que ela deve ter. rs

Natália Oliveira disse...

Adorei um texto. Apesar de grande ele me prendeu do inicio ao fim. Obrigada por comentar meu blog. Temos duas coisas em comum: o nome do blog ser de um animal e os personagens, você com noé e eu com a clarisse. bom te ler.

Vacablog! disse...

Ow povo triste.. mas é uma tristeza que dá vontade de ler..como é isso? ahahauhuhah
Muito bom..
Pronto.Comentado =P

Ivan Ryuji disse...

Dramático e Interessante teu texto.
É uma série, ou um 'post avulso'? Sendo um ou outro não importa, muito bem escrito.
Parabéns ae;

IvanRyuji
http://blogdoryuji.blogspot.com/

Thaiane disse...

Como sempre surpreendendo. Gostei muito das duas cronicas de Noé, dos trocadilhos e partes engraçadas. Bom, gosto da sua escrita, espero que continue assim. abraços

Sylvio de Alencar. disse...

Não me contentado em ler seu conto, ainda saio lendo tudo que é postagem em sua pág. de comentários...
2:30hs da matina...
Bem: legal o conto. Li com atenção (é a única maneira de saber-se o que se lê), senão como comentar? Morreria se não pudesse.
R@mon, acho que já tínhamos nos encontrado, mas, faz muiito tempo... como me achou? Porque neste momento? (considero emblemático meu 'momento' no bloguer. Mas, pode ser viagem minha...). Tenho depurado mais minhas preferências...
Voltando ao conto: uma história interessante, pelas razões apresentadas acima pelo Keu, e pelas tiradinhas criativas inseridas no contexto. Gosto de pensar num Noé que viveu o suficiente para estar num apê..., dá um quê de modernidade num personagem ancestral, e bíblico!
claro, acho que é ele, e não é; não fico pensando nisso, deixo minha imaginação voar, e ela voa, enriquecendo minha maneira de ler, de perceber.

Agradeço sua presença em meu cibernético espaço.
Façamos o seguite: visitemo-nos. Morrer ninguém vai. :)
Abraços fraternais.

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