quinta-feira, 7 de janeiro de 2010

Confesso:

Tem um pombo na minha janela.
Não durmo bem às vezes, o dia-dia é uma dor contínua. Uma corrida pros melhores. Disputa ingrata. Sinto que devo me preocupar, seguir a vida em detalhes, planejar. Todo o tempo é um peso, e a cada minuto ponho algo mais nas minhas costas. E a preocupação me segue, essa esposa infiel que me consome a noite inteira e em seguida me engana, esgana. Derrota.

Na minha janela, o pombo.
Quero respirar melhor, deitar no chão, correr à tarde.
Quero ser leve, desprendido, e um pouco de inconseqüência também não me faria mal.
Mas me prendo às convenções, a velhas amarras e planos que não costumam dá certo. Eu não dou certo, mas poderia...

Tem um pombo na janela.
As regras me abraçam, e eu as abraço de volta, até as beijo, me consomem por dentro, mas me protegem, de um jeito ou de outro, defendem.
Sou precipitado, tenso. E não durmo bem à noite, porque o dia é uma dor contínua e uma corrida de tropeços.

E eu me preocupo. Confesso: me preocupo.
Mas se assim não fosse, eu não ficaria bem.
Eu poderia jogar tudo pro alto, viajar, subir a serra, entrar no mar; eu poderia comprar um cachorro, deitar à tarde, correr no chão, e respirar... de novo.

Eu poderia! Mas sei que minha vida não seria mais a mesma, eu não seria.
Nem seria mais. Posso querer simplesmente dar um giro nas coisas, me tornar atitudes inesperadas, mas as regras...
as regras me fazem quem sou.

E tem esse pombo, que me olha da janela...
eu o olho de volta dessa vez, remoendo-me nos problemas...
aí ele, despreocupadamente, se vai.

"Se eu tivesse asas, não me prenderia a detalhes." [Mastigando Humanos. - Santiago Nazarian].

7 opiniões sobre isso...:

Vanessa Dantas disse...

''Se eu tivesse asas, não me prenderia a detalhes''

Eu achei simplesmente lindo. Preso, triste, acomodado, 'rotineiro'(me lembrou um outro post seu), mas me prendeu aqui, imaginando cenas, olhares, vozes... E, de certa forma, acabo me identificando. Tendo uma vontadezinha de sair batendo asas, mas com medo de que durante o vôo minhas asas quebrem (prefiro acreditar que as pedras que me atingem são as regras que me prendem).

Lindo e envolvente. Gosto desse ar de 'confessionário'.

SUPER!

''E eu que sempre sonhei em voar
Só queria sobreviver''

Beijos

Anna Paula disse...

owww q lindo...tão carente, tão sozinhooo...
Mas me deixe te contar um segredo...
O pombinho sou eu, tô te guardando da janela, vim tbm pra te salva...só precisa me deixar entrar...
huahuahua

luan victor disse...

ramon, menine...
vc escreve perfeitamente bem...
vc é foda ...

Vacablog! disse...

Jogar tudo pro alto as vezes faz bem...
Parar a rotina mundana e tal...
"Aquiete-se"

Ótimo texto
=D
bjs

Valéria Dantas disse...

Textos bombantes como sempre.

*_*


bjs

=*

*LIS disse...

Uma vez, conversando com dois amigos que admiro muito, disse que preferiria ser algo natural, vivo e irracional, como uma flor, uma onca ou... um pombo.
A ter toda essa racionalidade, e a consequente inquietacao de espirito.

Ele me disseram, que estava muito "Caeira", isso, para a minha surpresa, ate porque, vergonhosamente, nunca li Alberto Caeiro.
Mas um dia lerei, e espero que nao mais me identifique com isso.

Em meio aos Albertos, acho que encontrei mais um, entao.


Parabens! Otimo seu texto! Como sempre, e, qual foi o motivo do marreco ter se transformado em um elefante?
O link ja esta atualizado, e, aquele trecho do Milton N., me insiste em dizer varias coisas... se gostar, procure depois, no youtube, Fernanda Gonzaga cantando Meu Menino. Pois no fundo, acredito que algumas pessoas, e sua arte, tomam sua voz, e expressam, de alguma forma, tudo o que voce nao consegue por si so.

_Keu_Eterno devir disse...

Eu adoro ler você.
E isso não é uma Metonímia.
[acho que vc entende hehehehe]
Tu é definitivamente uma obra surpreendente, interessante...
Não esqueci o marreco, mas esse elefante já me fascina.
=D

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