Entreouvida na rua: “O que isso tem a ver com o meu café com leite?” Não sei se é uma frase feita comum que só eu não conhecia ou se estava sendo inventada na hora, mas gostei. Tudo, no fim, se resume no que tem e não tem a ver com o nosso café com leite, no que afeta ou não afeta diretamente nossas vidas e nossos hábitos. É uma questão que envolve mais do que a vizinhança próxima. No outro dia ficamos sabendo que o Stephen Hawking voltou atrás na sua teoria sobre os buracos negros, aqueles furos no Universo em que a matéria desaparece. Nem eu nem você entendíamos a teoria, e agora somos obrigados a rever nossa ignorância: os buracos negros não eram nada daquilo que a gente não sabia que eram, são outra coisa que a gente nunca vai entender. Nosso consolo é que nada disto tem a ver com nosso café com leite. Os buracos negros e o nosso café com leite são, mesmo, extremos opostos, a extrema angústia do desconhecido e o extremo conforto do familiar. Não cabem na mesma mesa ou no mesmo cérebro.
Mas assim como estes extremos não estão tão longe assim — basta o Sol inventar de implodir e iremos todos juntos para o buraco, nós, nosso café com leite, nosso pão com manteiga, nosso santinho da sorte e aquele pulôver favorito — coisas da vizinhança próxima que parecem não ter nada a ver com nossas vidas, têm muito. Você lê essas histórias de fortunas migrando entre os poucos bolsos de sempre, indo para paraísos fiscais e contas ofishór e voltando disfarçadas, o milagre de dinheiro estéril gerando mais dinheiro estéril, a grande e interminável farra do capital no Brasil, e é como se lesse sobre os buracos negros, algo que não lhe diz respeito, que se passa longe do seu café com leite. E no entanto a moral desse bordel é a moral dominante no país, agora, incrivelmente, mais do que nunca. É a que determina nossa expectativa de vida. Seus apologistas dizem que não há nada de ilegal no turismo sexual que o capital financeiro faz no Brasil para reproduzir a si mesmo, como se o escândalo não fosse justamente sua legalidade. Também alegam que não há alternativa viável à nossa dependência no capital amoral. Era o que o Stephen Hawking dizia da sua teoria para os buracos negros, antes de mudar de idéia. Mas aparentemente as leis da física são mais flexíveis do que a ortodoxia do bordel.
Luís Fernando Veríssimo;
Retirado de "O MUNDO É BÁRBARO e o que nós temos a ver com isso".
quinta-feira, 13 de novembro de 2008
Recortando o texto alheio.
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5 opiniões sobre isso...:
a Globalização.. ela nos afeta até quando dormimos.. o mundo.. todo o tempo todo.. não temos como fugir dela.. ela nos persegue.. então o que temos que fazer.. Apenas se adaptar.
A frase do dia será:"Mas aparentemente as leis da física são mais flexíveis do que a ortodoxia do bordel."
Cuide-se.. bJo
'Veríssimo Sempre Bomba' *-*
Não tinha lido esse ainda... muito massa.
=)
bjo
esse cara é foda! eu adoro ele!!
o analista de bagé é meu preferido dele, talvez por ser daqui do sul... esse aí é muito BOM!!!
bem, to esperando a lista... ;)
Veríssimo é Veríssimo... e eu A-M-O ele!
mas esse texto eu ainda não conhecia... e achei o máximo!
Como tudona vida, a globalização tem dois lados... o lado do progresso e o lado do regresso. Progresso para o mundo, evolução da tecnologia e afins... e regresso do ser humano, porque a cada dia eu me pergunto como será que a nossa raça "evoluída" se comportará daqui uns 50 anos... porque pra mim, roubar, matar, torturar, guerrear... são coisas que nem os nosso amigos macacos fazem.
*bjoO!
=]
Bom..eu não gosto muito de café com leite..ou café ou leite..mas do seu blog eu gostei, e pretendo visitar!
Sou tão distraida q não tinha reparado q o texto era do Veríssimo e não seu..cara se fosse seu ia te indicar pra A.B.L.
Mas enfim, muito boa sua escolha!
=]
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